O que o relógio disse a Dolly

Dolly Dimple estava sentada em um tapete perto da lareira do corredor, pensando. Duvido que você já tenha visto um grande corredor antiquado como aquele onde Dolly estava sentada, pois tais corredores não são mais construídos hoje em dia. Este fazia parte de uma grande casa irregular que tinha mais de cem anos. Dolly Dimple nasceu lá e a mãe e a avó de Dolly Dimple moraram lá por muito tempo. Elas deixaram sua casa do outro lado da água e vieram para esta quando a mãe de Dolly era uma criança pequena. Dolly tinha certeza de que nunca existira outra casa como aquela, e aquele salão era o seu deleite especial. Era quadrado e tinha um piso de carvalho brilhante, meio coberto com tapetes de pele. As paredes eram feitas da mesma madeira escura e, no final, ficava a lareira aberta de cerejeira, onde troncos cobertos de musgo rugiam e estalavam durante todo o inverno, iluminando os cantos escuros e contando histórias maravilhosas do verão e de suas vidas na floresta. Perto havia uma escada larga, no primeiro patamar da qual havia um relógio, e era sobre esse relógio que Dolly Dimple pensava tão profundamente naquela noite maravilhosa.

Era um rel√≥gio muito alto ‚ÄĒ mais alto que o pai de Dolly ‚ÄĒ e tinha uma longa porta de vidro atrav√©s da qual ela podia ver os pesos e o p√™ndulo que agora j√° n√£o se moviam. Acima disso estava o rosto redondo e bem-humorado que, Dolly tinha certeza, parecia muito diferente em momentos diferentes; quando ela estava bem, sorria docemente para ela, mas quando ela estava zangada – e lamento dizer que Dolly ficava zangada √†s vezes – ele olhava para ela com tanta tristeza! Tamb√©m tinha empatia; pois Dolly disse que, quando estava com problemas, ela via as l√°grimas escorrendo pelo mostrador do velho rel√≥gio; mas como ela mesma olhava atrav√©s de uma n√©voa de l√°grimas nessas ocasi√Ķes, n√£o teria como dizer que isso era realmente verdade.

Mas o mais estranho de tudo sobre esse rel√≥gio era que ele batia. Agora, talvez todos voc√™s, pequeninos s√°bios, n√£o achem uma coisa muito estranha um rel√≥gio bater; mas quando eu digo a voc√™ que este rel√≥gio fez isso apesar do fato de que suas rodas n√£o se moviam por muitos anos, isso certamente far√° voc√™ duvidar! E ent√£o atacaria nos momentos mais estranhos. Ningu√©m nunca sabia quando aconteceria, mas sabiam que j√° acontecera dezessete vezes! Dolly n√£o conseguia entender nada e, como ningu√©m lhe explicava, isso a deixou muito confusa. Naquela noite ela estava mais perplexa do que nunca; pois ao raiar do dia o rel√≥gio havia batido cinco horas, e como o rel√≥gio poderia saber que era seu quinto anivers√°rio? Ela deitou-se enrolada no tapete macio, pensando nisso, at√© que come√ßou a ficar sonolenta. O crepitar da madeira soava cada vez mais longe; o chilrear estridente do grilo que vivia atr√°s da lareira foi ficando cada vez mais fraco. De repente, uma voz ‚ÄĒ uma voz muito rouca ‚ÄĒ quebrou o sil√™ncio.

“Dolly! Dolly Dimple!” disse. Dolly saltou t√£o apressadamente que o grilo assustado saltou para tr√°s quase no fogo. De onde tinha vindo a voz? Dolly espiou cuidadosamente pelo corredor at√© que seus olhos pousaram no velho rel√≥gio, quando ela ficou surpresa ao ver que um novo olhar havia surgido em seu mostrador – um olhar que disse a Dolly que era o rel√≥gio que havia falado. E, com certeza! Enquanto ela estava olhando para ele, ele falou novamente. “Gostaria de ouvir uma hist√≥ria, Dolly?” perguntou.

Agora n√£o havia nada que Dolly gostasse mais do que uma hist√≥ria; e esquecendo sua surpresa, em sua √Ęnsia de ouvir o que o rel√≥gio tinha a dizer, ela respondeu rapidamente: “Sim, rel√≥gio; voc√™ pode me contar uma?”

“Isso eu posso”, disse o rel√≥gio. “Vou te contar a hist√≥ria da minha vida.”

Dolly teve certeza de que agora o mist√©rio seria resolvido e se encolheu mais confortavelmente para ouvir; o grilo ocupado endireitou o bon√© e cruzou as m√£os para mostrar sua profunda aten√ß√£o; o fogo deu um brilho mais quente, e o rel√≥gio come√ßou: – “Talvez, Dolly Dimple, voc√™ entenda melhor que maravilha eu sou se eu lhe disser que uma vez n√£o havia um rel√≥gio na face da terra .”

“Ora! Que hist√≥‚Ķ”, come√ßou o grilo, e ent√£o parou; mas era bastante claro que ele n√£o acreditava em uma palavra dita.

“Sem rel√≥gios!” exclamou Dolly, “como assim, como as garotinhas sabem quando √© hora da escola, ou hora do jantar, ou – ou – qualquer coisa?”

“Elas tinham outras maneiras de contar as horas”, respondeu o rel√≥gio; “uma das primeiras coisas pelas quais eles mediam o tempo era uma vara, – uma vara reta!”

“Um peda√ßo de pau!” exclamou Dolly.

“Uma vara reta!” murmurou o grilo; “Eu sabia que aquele rel√≥gio era maluco.”

“Fui criado para acreditar que √© falta de educa√ß√£o interromper”, disse o rel√≥gio.

“Claro que √©”, disse Dolly, “n√£o vamos dizer mais nada, vamos, grilo?”

“Mas um pau!” gemeu o grilo, balan√ßando a cabe√ßa.

“Sim”, disse o rel√≥gio, “tente voc√™ mesmo! Saia de casa na pr√≥xima manh√£ ensolarada e plante um pequeno graveto no ch√£o. Se for cedo, a sombra ser√° muito mais longa do que o pr√≥prio graveto, e parecer√° como se estivesse se escondendo do sol; quando o meio-dia se aproxima, voc√™ encontrar√° a sombra rastejando para cima e para cima, at√© que, ao meio-dia, a vara parece engoli-la; e ent√£o, quando o sol se move em dire√ß√£o ao oeste, a sombra espreita e rasteja do outro lado da varinha at√© a noite, quando a sombra e a vara s√£o ambas engolidas pela escurid√£o. Agora voc√™ n√£o v√™ como consegue contar o tempo pela vara e sua sombra? E foi isso que fez algu√©m pensar em um rel√≥gio de sol.”

“Um rel√≥gio de sol”, interrompeu o grilo, que n√£o conseguia ficar parado; “O que √© isso?”

“Parece uma mesa de boneca com um pequeno peda√ßo de metal em p√© no centro; e no tampo da mesa est√° marcado o comprimento da sombra que esse peda√ßo de metal projeta em diferentes horas do dia.”

“Esse era o √ļnico rel√≥gio que eles tinham?” perguntou Dolly.

“Se a sua gata tivesse vivido naquela √©poca, eles a teriam usado como rel√≥gio”, dizia o rel√≥gio.

O grilo evidentemente achou essa hist√≥ria tola demais para merecer aten√ß√£o, e at√© Dolly pareceu chocada; mas o rel√≥gio sabia do que estava falando e continuou. “Se voc√™ olhar para os olhos de Kitty quando ela acorda pela manh√£, voc√™ descobrir√° que o lugar escuro no meio do olho √© muito grande e redondo; mas logo voc√™ notar√° que ele vai ficando menor, at√© que ao meio-dia est√° fino como um fio de cabelo; e ent√£o lentamente crescer√° de novo, at√© que, quando a noite chegar, ser√° t√£o grande e redondo quanto era pela manh√£.

“Que inc√īmodo deve ter sido contar as horas dessa maneira!”, disse Dolly.

“Sim, eu tamb√©m acho”, respondeu o rel√≥gio, “e as pessoas come√ßaram a pensar que deveriam ter algo melhor em que confiar. Ent√£o, cerca de quinhentos anos atr√°s, algu√©m inventou um rel√≥gio – n√£o um grande e bonito como eu, mas um muito simples que n√£o tinha p√™ndulo e n√£o podia bater.”

“Pobre rel√≥gio!” suspirou Dolly.

“Melhor n√£o bater do que bater como alguns rel√≥gios fazem”, observou o grilo de forma bastante rancorosa.

“Mas era um rel√≥gio, e considerado uma coisa muito maravilhosa naqueles dias”, continuou o rel√≥gio; “e as pessoas devem ter ficado muito satisfeitas, pois n√£o adicionaram um p√™ndulo por centenas de anos.

“Voc√™ √© muito velho?” perguntou Dolly. “Sim, estou muito, muito velho. Deve fazer mais de cem anos desde que minhas m√£os come√ßaram a se mover. – Ah! aquele foi um dia de orgulho para o meu criador. Cada pequena roda brilhante era t√£o perfeita quanto algo perfeito poderia ser, e no meu caso era uma bela vis√£o. No dia em que fui terminado, o pequeno relojoeiro era o homem mais feliz do mundo. Ele me examinou em todas as partes com o maior cuidado, e minha perfei√ß√£o o encantou. Ent√£o ele pegou uma chave grande e me deu corda. Levantei, toquei meu p√™ndulo e com um ‘tique-taque, tique-taque’, comecei o trabalho de minha vida. O pequeno relojoeiro n√£o teve muito tempo para me admirar, pois muito em breve uma velha senhora me comprou, e fui levado pela √°gua azul ondulante e colocado neste corredor. Estou exausto e in√ļtil agora, mas ent√£o eu era da maior import√Ęncia. Nada era feito sem me consultar. Sempre e sempre tantas crian√ßas de olhos brilhantes subiam e desciam correndo as escadas e se enrolavam no fogo assim como voc√™. Eu amei todos eles e tentei mostrar a eles o que estava acontecendo principalmente mantendo nossas m√£os ocupadas trabalhando para os outros, e fazendo o certo, para que pud√©ssemos ser felizes e fazer com que nossos amigos nos amem. Eles podem ter pensado que tudo o que eu disse foi ‘tique-taque, tique-taque’, mas na verdade eu sempre disse da maneira mais clara poss√≠vel: ‘Fa√ßa o certo, fa√ßa o certo’.”

“Querido velho rel√≥gio!” murmurou Dolly; e at√© o grilo virou a cabe√ßa e enxugou uma l√°grima.

“Antes de parar”, disse o rel√≥gio, “devo falar de uma coisa que outros al√©m de voc√™s notaram”, e o rel√≥gio olhou para o grilo, que parecia querer afundar no ch√£o. “Voc√™ deve saber que h√° muito tempo minhas m√£os se recusam a mover-se mais um minuto. Foi um dia lament√°vel para mim e, √†s vezes, meus sentimentos me dominam mesmo agora, quando penso no passado. Nessas ocasi√Ķes, √© um grande al√≠vio para mim poder bater.”

“Meu querido velho rel√≥gio”, exclamou Dolly, “Voc√™ pode bater quantas vezes quiser, e se o grilo alguma vez ousar‚Ķ”

“Dolly! Dolly Dimple!” Harry estava chamando.

Dolly se sentou e esfregou os olhos. “Qual √© o problema?” ela perguntou.

“Isso √© o que eu gostaria de saber! Ora, a pr√≥pria ideia de uma menininha fazendo anivers√°rio dormindo como se fosse qualquer outro dia!”

“Dormindo! N√£o consegui pregar o olho, ora, o rel√≥gio est√° falando, e o grilo, e‚Ķ”

“Muito provavelmente! Como se eu acreditasse nisso quando derrubei o ati√ßador, a p√° e a pin√ßa, e voc√™ nem sequer piscou.”

Dolly olhou para o velho rel√≥gio, mas n√£o disse uma palavra. O rosto largo e bem-humorado brilhava sobre ela como sempre, mas ela imaginou que tinha uma express√£o s√°bia que dizia t√£o claramente como tantas palavras: “Fique quieta; os meninos n√£o s√£o t√£o s√°bios quanto pensam que s√£o. Dolly n√£o se importe com ele, mas lembre-se de tudo o que eu lhe disse e tente aprender algo todos os dias com quem puder. Fique feliz por ter rel√≥gios para lhe dizer as horas e para lembr√°-la de manter as m√£os ocupadas e fazer o certo, fazer o certo .”

“Dolly! Dolly! Por que voc√™ fica olhando para aquele velho rel√≥gio? Eu declaro que voc√™ ainda est√° meio dormindo!”

Dolly esfregou os olhos e olhou para o irm√£o risonho, e depois novamente para o rel√≥gio agora silencioso. Ela ficou feliz por ter sido avisada para ficar quieta, pois n√£o tinha vontade de contar a hist√≥ria toda; mas quando ela cresceu costumava dizer √†s criancinhas “O que o rel√≥gio disse a Dolly”.


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